Rio de Janeiro,
A Saga de Kallaby Suff Haram

 Há muitos séculos, no velho Oriente, viveu um grande árabe, um famoso
salteador de estradas que todos conheciam pelo nome de Kallaby Suff
Haram. Ele era admirado e amado pelo povo, porque repartia as riquezas
com os miseráveis e famintos que encontrava em seu caminho. Juntamente
com o seu grupo, trilhava as areias escaldantes do impiedoso deserto em
busca dos grandes e poderosos daquela época, para arrecadar o necessário
à sobrevivência de seus protegidos.

Geralmente, em janeiro, quando o rigor do deserto castigava os
viajantes, Kallaby e seu grupo visitavam diversas cidades para
distribuir os produtos. Nessas ocasiões, aconteciam grandes festas para
receber e homenagear o benfeitor. Numa noite, de um dia 6 de janeiro, na
cidade de Bassora (Al Basrah, sul do Iraque), um jovem transtornado
irrompeu na taberna onde Kallaby Suff Haram festejava com o povo. Havia
uma determinação doentia em seu olhar, que vasculhava o recinto em busca
de alguém, até que se deteve ao ver um bêbado deitado num canto ao
chão. A intenção criminosa do jovem foi imediatamente percebida por
Kallaby, que era um homem dotado de incrível paranormalidade (ele era
descendente do povo Sufi do deserto, conhecido na época pelos seus dons
mágicos). Assim, quando o jovem avançou em direção ao velho bêbado, um
pulso forte o segurou, enquanto uma voz firme e calma fez-se ouvir: -
“Espere jovem! Porque investe contra este pobre homem? Já não bastam os
sofrimentos que ele passa por causa do vício?”, perguntou Kallaby.


- “Este homem, se é que assim merece ser chamado este farrapo
humano, quase um verme, é meu pai ... mas, nem por isso eu poderia
deixar de odiá-lo. Longe daqui, em um silo imundo, minha mãe está
morrendo, vítima de maus tratos e fome. Uma mulher digna e bondosa que
foi injustamente arrastada a uma vida de sofrimento e privações até que
sucumbiu! Porém, fique tranqüilo! Nada farei com ele até que ela tenha
morrido. Só então irei me vingar. Mas devo levá-lo agora, pois meus dois
irmãos nos aguardam junto à nossa pobre mãe”, respondeu o jovem chamado
Allan Marabi.


- “Não farás isto! Irei contigo! A vida deve ser trilhada no
caminho da consciência. Não haja na inconsciência, buscando apenas
satisfazer o seu ego ferido. Quando jovem cometi o mesmo erro e nunca
mais pude desfazê-lo.”


Assim, deixando a festa, Kallaby partiu com o jovem Allan
Marabi e seu pai em direção ao cenário daquela tragédia. Num leito
improvisado de palha, em meio a trapos sujos, encontraram uma mulher
muito doente, fraca e agonizante. De seu corpo, a única parte que
parecia estar viva eram os seus olhos, muito negros, que brilharam ao
ver os três entrarem. Como que iluminada pela visão, a mulher conseguiu
juntar forças para falar ao filho:

- “Graças a Allah, vejo-te de volta com teu pai! Filho, muito já
sofri, mas nunca me ouviste proferir qualquer lamento, reclamação ou um
único pedido de vingança. Estou triste por ver o ódio em teus olhos.
Filho, prometa que arrancarás esta erva daninha do teu coração, seguindo
o caminho do amor e da compaixão. Lembra-te: em todos os momentos, és
abençoado!”


Após isso, sua voz desvaneceu e logo se ouviu seu último
suspiro, partindo para o plano espiritual. Emocionado com o pedido de
sua mãe, Allan perdoou seu pai. Os três jovens filhos, Allan, Farid e
Mohamed, seguiram em companhia de Kallaby Suff Haram de volta à taberna.
Ao chegarem, foram recebidos com alegria, pois seus amigos, ansiosos,
os esperavam com um bonito bolo. Feliz com o presente, Kallaby tirou a
adaga de sua bainha, cortando o bolo em cruz, enquanto pronunciava as
seguintes palavras: - “Eu te peço, Allah, poderoso em sua infinita
misericórdia, que assim como de um farei quatro, de quatro possais fazer
um.”


E, voltando-se para os três irmãos, disse: - “De hoje em diante, vos guiarei por toda a eternidade!”

O juramento foi cumprido. Desde aquele dia, os três irmãos
passaram a integrar o grupo de Kallaby, que tanto os guiava pelas areias
escaldantes do deserto, como mostrava-lhes algumas nuances da vida,
como um pai que procura sempre indicar a seus filhos o melhor caminho a
seguir. Logo, os três protegidos de Kallaby tornaram-se famosos e, à
medida que seus nomes eram repetidos e seus feitos divulgados, suas
cabeças passavam a valer mais dinares. Há muito, eles enfrentavam este
problema. Os potentados ofereciam somas fabulosas pela captura de
Kallaby, dos seus dez companheiros e dos irmãos Marabi. Destes, Allan
Marabi, o mais impetuoso e impulsivo, por ser dotado de grande carisma
pessoal, tornara-se o mais popular e, portanto, vivia em constante
perigo. Kallaby e seus seguidores tinham grandes aliados em seu esquema
de proteção: o povo, que os adorava, o grande conhecimento do deserto e a
fé em Allah, aliada à poderosa magia Sufi. Kallaby, agora mais velho,
permanecia em sua pequena tenda, que curiosamente só era encontrada por
aqueles que, sofrendo, buscavam sua ajuda, e sempre eram recebidos com
amor e palavras de conforto. Allan Marabi, a quem delegara os poderes de
ordem temporal, saía pelo deserto comandando o grupo. Um dia, como se
sentisse o perigo de uma separação iminente, Kallaby chamou Allan para
conversar:

- “Filho, ainda me lembro como tudo começou. Eu era tão jovem e
impetuoso quanto tu és. Nunca passei privações, pois minha família era
uma das mais ricas da região. Porém, nunca deixei de me preocupar com os
menos favorecidos e não conseguia compreender porque os ricos em vez de
ajudá-los, mais os exploravam, julgando-os inferiores e indignos. Um
dia, ao ver o guarda de um dos poderosos maltratar um pobre velho,
revoltei-me e, num ímpeto de raiva, avancei contra o algoz a fim de
libertar a vítima indefesa. Não tardou e os guardas vieram em meu
encalço. Eram muitos e minha única saída foi fugir para o deserto, por
onde muito tempo vaguei. Tinha muita fome, a mesma fome que os
miseráveis, dos quais tanto me apiedava antes, sentiam. Tinha minha
adaga, um braço forte e muita coragem. Tudo isso me compeliu a infringir
a lei dos homens, mas para minimizar meu erro, achei por bem aliviar os
males que acometiam aos mais fracos, de acordo com as leis de Allah.


No início eu era sozinho, mas nas cidades por onde passava
sempre existiam jovens que compartilhavam de minhas opiniões e a mim
vinham juntar-se. Assim conheci Astor, que era filho de um rico
mercador, Ali Abu, Achmed e Simão, que veio de terras que ficam além do
deserto. Em pouco tempo éramos onze, onze amigos a compartilhar dos bons
e maus momentos. Naquela época, pouco refletíamos sobre nossas atitudes
e, muitas vezes, erramos. Porém, Allah sempre nos guiou e nos mostrou o
caminho da verdade.

É essa verdade que tentei transmitir a vós, mais jovens, mas sinto
que ficará incompleta, pois o tempo não me deixará transmitir em sua
totalidade e o restante caberá a ti, como a teus irmãos, encontrares.
Espero que tenhais êxito nesta missão, pois, onde quer que eu esteja,
exultarei de alegria ao sabê-lo. Como tua mãe o fez um dia, também peço a
Allah que te abençoes e te ampares, pois não sei se voltarei a ver-te
novamente. Lembra-te: onde quer que estejas, em pensamento também lá
estarei para guiar-vos.”


Não tardou muito para que Kallaby Suff Haram morresse. Cada
um dos três irmãos seguiu seu caminho, cada qual em busca de sua
verdade. Porém, como nem sempre a verdade de um homem coincide com a
verdade suprema, ele poderá aperfeiçoar-se, sem necessariamente alcançar
a evolução espiritual esperada em uma única existência. Talvez isso
tenha ocorrido, não só com os três irmãos, mas provavelmente, também com
muitos componentes daquele grupo, que muitas outras existências
tiveram, até que um reencontro ocorresse.


 


Notas: * Kallaby Suff Haram é o Senhor da
Guerra contra a Guerra, e numa de suas encarnações foi Jorge da
Capadócia, o Santo Guerreiro e Grande Mártir do Oriente.

** Allan Marabi foi uma encarnação do Irmão Ewaldo Reis e Silva, o Presidente Eterno e fundador da T.I.O, já desencarnado.

*** A mãe de Allan Marabi foi uma encarnação da Irmã Emerita Jezler Favilla, fundadora da T.I.O.

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